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Trabalhar dá muito trabalho...


O que motivou o tema deste texto aconteceu há já uma semana e sim, o mesmo seria mais pertinente se fosse publicado na primeira quinzena de Agosto, mas precisamente porque estive a trabalhar nesse período e a escrita deste blog é apenas uma actividade secundária (ainda que levada com a seriedade que o estimado leitor merece), só agora tive vagar para aqui deixar estes pensamentos.

Não se veja aqui qualquer tentativa de vingança, fruto da inveja de quem não fez férias nas primeiras duas semanas do oitavo mês do ano, dedicada a quem o conseguiu fazer. Não tenho qualquer questão de princípio, contra ou a favor, quanto à escolha desta época para fazer férias. Compreendo, que sendo normalmente o pico do calor de todo o ano, seja eventualmente o mais adequado para fazer praia, bem como, seja a altura que quem quer ir para determinado local, quando "toda a gente" vai, aí queira estar. Como compreendo quem não quer fazer férias quando tudo está apinhado de pessoas e a confusão reina, para que depois não seja preciso tirar férias... das férias. Assim como entendo quem ora pense de uma forma e e algum ano seguinte opte por outra, como é o meu caso.

Aqui o meu foco não é quem, trabalhando para outrem, decide tirar férias quando muito bem entende e de acordo com a sua entidade patronal. Também não é o empresário ou gestor que o faz não afectando os resultados da sua empresa. Mas serão, sim, os donos de estabelecimentos que, tendo todo o ano para tirar férias, decidem encerrar os ditos numa das épocas em que podiam facturar mais.

Atenção que, como saberá quem leu o meu primeiro post, tenho uma inclinação liberal na área económica, pelo que, longe de mim querer retirar a autonomia que um dono de determinado negócio deve ter de decidir fechá-lo, ou não, para férias e quando. No entanto, permito-me ter opinião sobre o tema e aqui a tentar sintetizar.

No dia 07 de Agosto, eu e a minha mulher tivemos vontade de comer uma boa mariscada em Lisboa e pareceu-me o dia ideal para ir experimentar uma nova marisqueira que abriu relativamente perto de nossa casa, na Álvares Cabral, entre o Rato e a Estrela, a Sem Vergonha. Até então (e mesmo até hoje) só tinha ouvido e lido falar bem desta novidade. Espaço interior agradável, serviço simpático, matéria prima (leia-se marisco) de muito boa qualidade, preços não abusivos e uma grande esplanada resguardada do vento com que costumam ser presenteadas a maioria das noites de verão da Grande Lisboa. Apesar de ser terça-feira, como era dia de jogo do Benfica da primeira mão da pré-eliminatória da Liga dos Campeões e em plena vaga de calor, decidi ligar bem cedo, a partir das 11:00 para tentar assegurar uma pequena mesa de dois num lugar que, estava eu certo, estaria cheio.

Ninguém atendeu... demasiado cedo, pensei. Nova tentativa às 11:30 e nova desilusão. Ao meio dia certamente já estariam abertos pelo que tentei novamente e... nada.

"Será que estão fechados hoje?", pensei. Fui ao Zomato e não, não era dia de fecho semanal. Uma ideia bizarra me passou pela cabeça: "estarão fechados para férias (ar incrédulo)? Na... em pleno Agosto, quando devem facturar imenso? Com certeza que não, que estupidez a minha! Devem é, pelo contrário, estar já tão cheios de trabalho que nem conseguem atender. Esperemos então pelo fim do pico de labor e voltemos a ligar a partir das 14:30".

Mas ninguém atendeu. Nem às 14:30 nem, nem às 15:00, nem às 15:30, nem às 16:00, nem às 16:30.

Fui, então (se calhar já o devia ter feito mais cedo) ver a página de Facebook desta cervejaria e lá estava... "fechados para férias e descanso do staff de 1 a 16 de Agosto".

Bom, se a novidade não resulta, voltemos ao porto seguro do mundo cervejeiro-marisqueiro olisiponense: o Ramiro! Mas também ninguém atendeu. Aqui, pelo menos, não foi necessário apanhar sucessivas desilusões, pois logo surgiu uma gravação declarando que estavam de férias durante todo (!) o mês de Agosto.

Repito, longe de mim achar que os funcionários da Sem Vergonha e do Ramiro não merecem férias (nunca fui ao primeiro, mas os deste último trabalham e bem para merecer o seu descanso anual), ou que não as merecem gozar em Agosto. Também os gerentes e donos de ambos merecem as suas férias e na altura que quiserem. Mas... não seria possível ter rotatividade de empregados para que os estabelecimentos não fechassem?

Creio que muitos empresários não perceberam ainda o salto quantitativo que o turismo em Portugal e mais concretamente em Lisboa teve nos últimos anos e o quanto o seu contributo qualitativo é importante para sustentação do sucesso desta área económica no nosso país, mas também do retorno directo que um maior empenho seu pode ter na produtividade do seu negócio e consequente aumento do lucro.

Quem tenha ido nos últimos tempos ao Ramiro sabe que cerca de metade da clientela já é estrangeira, tendo este restaurante entrado já no circuito turístico de quem visita a capital do nosso país. Alguém duvida que estivesse cheio todos os dias, se estivesse aberto em Agosto, tanto ou mais como está no resto do ano!? Já nem falo dos portugueses que, não estando de férias nesse mês, ou estando, não viajaram para fora de Lisboa, têm vontade de acompanhar os mariscos de qualidade com as sempre bem tiradas e frescas imperiais desta casa. E a Sem Vergonha? Hoje em dia, com todas as ferramentas digitais, é impossível um estabelecimento ter sucesso entre nós, sem que os turistas o saibam também. Com as características que descrevi, também restam dúvidas que estariam sempre com a casa bem composta e a render?

Quando vamos a cidades nas quais o turismo é uma das actividades mais importantes, os restaurantes de referência (de qualquer categoria, dos mais sofisticados aos mais simples), não têm sequer dia de fecho semanal, quanto mais quinzenas, ou meses... Quando nos visitam turistas desses países, ou de outros, mas que já os visitaram, acreditem na confusão que lhes faz quando, ao tentarem ir a um restaurante de Lisboa que lhes foi aconselhado, está fechado nesse dia, ou nessa quinzena, ou nesse mês...

Os mesmos a quem faz confusão, embora não lhes toque pessoalmente, mas verificando o contrário do que passa na sua terra, que as lojas (felizmente cada vez menos) estejam fechadas na hora de almoço, ou seja, no horário em que a maioria das pessoas sai do emprego com algum tempo para fazer compras nas imediações e encerrem no horário em que essas mesmas pessoas estão a sair do emprego. Felizmente, repito, há cada vez mais ("curiosamente", quase sempre marcas internacionais, que tanto são acusadas de mesmo com lojas de rua estarem a destruir o comércio tradicional) lojas no centro de Lisboa e outras cidades a não fecharem no horário de almoço e encerrarem apenas depois das 19:00.

Como não consegui escrever este texto logo na primeira semana do mês dedicado ao imperador romano César Augusto, fui ainda a tempo de viver outro exemplo desta preguiça de lucrar, também noutro dos meus locais favoritos (sublinhe-se que não há aqui qualquer tentativa de denegrir algum dos 3 estabelecimentos focados, que são até elogiados, pois a frustração de não os  poder fruir adequadamente, resulta precisamente por se contarem dentro das preferências do autor), o Bar do Guincho.

Sendo pai de um menino de 14 meses tento chegar à praia o mais cedo possível. Aliás, mesmo antes de ser pai o tentava fazer, quando o destino é a praia do Guincho, pois como não abundam os dias sem vento nessa maravilha da natureza, o meu plano é, por gostar de conforto, chegar logo cedinho ao parque de estacionamento da ponta norte para não ficar em filas e arrumar o carro descansado, encontrando ainda um toldo bem localizado com facilidade. Este parque é gerido pelo Bar do Guincho e abre às 09:00, sendo que o próprio bar, junto ao qual se passa para chegar à praia, apenas abre às 10:00, pelo que tentar tomar o pequeno almoço lá, ao chegar à praia, só esperando uma hora.

Bom, sendo já 10:00 é possível tomar um café, um sumo, beber uma cerveja, mas para comer só uma empada, ou um pastel de nata. Tostas (que lá são deliciosas)? Só a partir do meio dia! Sanduíches? Só a partir do meio dia! Perdão... esqueci-me de dizer que na montra estavam croissants, junto às mencionadas empadas e pastéis de nata. "Será que podiam abrir um e colocar lá dentro queijo e/ou fiambre?", perguntei. A resposta foi, adivinhai... "Só a partir do meio dia"! De há uns poucos anos a esta parte têm também um pequeno bar mesmo na praia, uma cabana de madeira, muito gira e com uma esplanada numa pequena duna, com uma vista fantástica sobre a praia. Mas claro que a esta hora não é possível tomar lá nada, isto porque este anexo abre... "só a partir do meio dia"...

Eu não sei se é defeito nosso, por sermos portugueses, se por sermos um povo latino, se da nossa tradição católica, mas nunca me esqueço do que nos deixou escrito Max Weber n'A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e todos os outros pontos que podemos observar à nossa volta e todos ligados confirmam que, por um lado, "até parece mal" alguém ter sucesso e o lucro parecer ser uma doença contagiosa que ninguém quer assumir ter, ou querer ter; por outro, o comodismo é sempre mais fácil que a iniciativa, até porque... trabalhar dá muito trabalho!

P. S. - Perguntará o leitor e de forma pertinente, o que andou a fazer alguém que vem aqui defender a produtividade e criticar tempos de ócio, durante quase um dia inteiro de trabalho a pensar em jantares, a telefonar para restaurantes e a ver os seus sites na internet... pois bem, é para que vejam, que a falta de iniciativa dos gestores desses restaurantes é tão acentuada que além de prejudicarem a sua produtividade, prejudicaram também a minha!

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