Durante muitos anos andei algo perdido, não sabendo bem onde me situar dentro das existentes definições ideológicas.
Sou militante do PSD, mas não sou propriamente social democrata (alguém no PSD o é verdadeiramente?). Pelos mesmos motivos, não sou, definitivamente, socialista, muito menos comunista.
Quem sabe, fosse um Democrata Cristão. Embora seja católico praticante (expressão que devia ser redundante, mas infelizmente útil para identificação nos dias que correm) e esteja em consonância com a Doutrina Social da Igreja, bem como eventualmente partilhe até a quase totalidade dos princípios da Democracia Cristã, parece-me esta ideologia curta para todo o espectro de intervenção política que julgo que uma ideologia deve ter.
Há muito tempo também que se fala da falta, em Portugal, de um espaço político onde se possam inserir e intervir os liberais (novos partidos alert?)... seria eu um Liberal? Também não. E também não porque sempre vi Liberalismo como contrário a Conservadorismo e caramba... eu concordava e concordo com muito do que é defendido pelo Conservadorismo.
Seria eu um conservador? Possivelmente. Mas como aceitar estar integrado no Conservadorismo, se defendo postulados liberais tais como menos lastro do estado e comércio livre? Então eu não era, não sou, apenas, um Conservador.
Tentando perceber quem eram os candidatos que se perfilavam para as eleições presidenciais do Brasil deste 2018, há cerca de um ano atrás deparei-me com um sítio na internet que desenhava o perfil de Jair Bolsonaro e no campo da ideologia sugeria que este fosse "Conservador Liberal".
Boom! Crash! (preencher por parte do leitor com as suas onomatopeias preferidas que indiquem uma bomba, um estilhaço, um estoiro, até mesmo... uma pedrada no charco - que onomatopeia seria esta? Plomp? Bom, não divaguemos!)
Seria possível haver um Conservadorismo Liberal!? Sim!
Antes de continuar, devo sublinhar que ter chegado ao Conservadorismo Liberal através de Bolsonaro, não terá sido o caminho ideal. Ainda que, dentro dos candidatos a presidente do Brasil, com chances de ganhar, este não seja o pior, ou dos piores, na minha avaliação, discordo com muito do que afirma e ele mesmo se contradiz com muito do que supostamente pretende para o seu país. Não será, creio, Bolsonaro um Conservador Liberal. Não sei o que será... talvez nem mesmo Bolsonaro o saiba, pois embora todo o mundo seja feito de mudança e mudar de partido político não seja um pecado, este senhor já esteve filiado em 8 (!) partidos e ele mesmo não fecha a porta a mudar novamente.
Mas voltemos ao Conservadorismo Liberal.
Seria possível alguém rever-se em Edmund Burke e Alexis de Tocqueville, quando ao mesmo tempo admira as teorias de Montesquieu ou Adam Smith? Sim!
Uma pesquisa um pouco mais séria levou-me ao que neste tema têm escrito João Carlos Espada e João Pereira Coutinho. Merece aqui destaque o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, dirigido pelo primeiro e onde se doutorou e lecciona este último, reunindo além destes dois nomes, outros como André Azevedo Alves. Para quem se interessa pela temática, aconselho vivamente o livro Conservadorismo, de Pereira Coutinho, rico de conteúdo, embora de leitura fácil e agradável, graças aos dotes explicativos do autor.
Tentando sintetizar, sou Conservador Liberal pois descobri que posso ser, em primeiro lugar, Conservador, não apenas nos valores, até morais, mas dentro do que a melhor tradição anglo-saxónica do Conservadorismo apresenta enquanto antítese da revolução, do pulverizar do modelo actual de sociedade, reconhecidamente injusta e imperfeita, para a construção de uma utopia, por definição irrealizável. Mas não imobilista, muito menos reaccionário. Reformista, sim, actuando para precisamente reformar e melhorar a sociedade em que vivemos para que se torne mais justa, mais desenvolvida e melhor para cada um de nós. Liberal também, porque para o realizar, acredito que tem de haver menos peso do Estado na Economia, falando no caso português, enquanto agente económico, devendo o mesmo Estado dirigir as suas forças neste campo para a regulação exemplar desta área vital; bem como a nível internacional estar convencido que o proteccionismo aduaneiro não defende ninguém, sejam consumidores, comerciantes ou até mesmo produtores.
Não pretende este blog ser um espaço de política, apenas, muito menos ousar ser sério e profundo. Gosto de pensar que o poderemos encarar, eu e os (eventualmente poucos) leitores, como uma colecção de crónicas, de todo o tipo de temas, mas não podia deixar de, em primeiro lugar, deixar a declaração de interesses que acabo de escrever.
Comments
Post a Comment