Esclareçamos desde já uma coisa: este post não é sobre Cristiano Ronaldo.
É, sim, sobre a forma como determinados sectores da nossa sociedade abordam o mesmo tema, dependendo do protagonista, ou protagonistas.
Há cerca de um ano, por volta de Outubro de 2017, o movimento #MeToo assumiu contornos virais, sendo despoletado pelas mulheres, profissionais da indústria audiovisual dos EUA, actrizes e outras, que vieram a público denunciar os comportamentos de assédio e abuso sexual de que foram alvo por parte do poderosíssimo produtor Harvey Weinstein. A tradução literal de "Me Too" é "Eu Também" e foi esta expressão que deu nome ao movimento, pois essas primeiras denunciantes terão dado coragem a outras assediadas e abusadas para virem publicamente assumir que, elas também, tinham sido vítimas desse comportamento de Weinstein. A partir daí, outras mulheres e outros homens (veja-se o caso de Kevin Spacey) decidiram dar a conhecer ao mundo as suas experiências em que afirmam ter sido vítimas de predadores sexuais.
Faço a distinção entre assédio e abuso sexual, pois parece-me que hoje em dia há uma tendência para colocar tudo no mesmo saco, correndo assim o risco de se desvalorizar os actos mais graves. Não que o assédio sexual deva ser desvalorizado, mas parece-me que haverá diferenças entre um piropo, mesmo que inconveniente e por isso eventualmente condenável; uma proposta indecente, implícita ou explícita, bem como algum tipo de coação; e por último, a violação ou abuso sexual, ou seja o obrigar alguém a um acto sexual contra a sua vontade, mesmo que não implique violência.
Não, quer dizer não! Em qualquer circunstância! Quer seja numa primeira abordagem, quer depois de algum flirt, mesmo que o abusado ou abusada tenham inicialmente seduzido o agressor, ou até mesmo no meio do acto sexual... se algum dos intervenientes não quer, ninguém o pode obrigar.
Voltando a Harvey Weinstein, o movimento #MeToo foi crescendo graças à credibilidade de que cada nova denúncia se revestia. E julgo que essa credibilidade se deveu, mais do que à análise dos factos em si (por muito séria que tenha sido por parte das autoridades e parece que foi), porque o alvo das mesmas é um poderoso homem feio, gordo e com ar de estar sempre suado, quase um sapo sujo e flácido. A ideia que se começava a construir era, se por um lado as mulheres vinham denunciar um homem tão poderoso é porque certamente era verdade, ou não teriam essa coragem; por outro, como é que um homem tão asqueroso poderia ter mantido relações sexuais com muitas mulheres bonitas, se não fosse por as ter obrigado de alguma forma!?
Não estou de qualquer forma a tentar retirar a referida credibilidade a esses testemunhos, ou a defender a inocência de Harvey Weinstein, que as investigações demonstram ser mesmo culpado destes actos condenáveis, criminosos e grotescos. Mas pelos motivos que descrevi, é muito mais fácil acreditar que ele é um abusador sexual do que um jovem em forma, ídolo de multidões por quem milhões de mulheres suspiram em todo o mundo.
Eu não sei se o Cristiano Ronaldo violou a Kathrin Mayorga! Sei o que toda a gente sabe, isto é, que se conheceram numa discoteca em Las Vegas, que dançaram e trocaram sussuros, que subiram com outras pessoas para a suíte do jogador para fazer uma pequena festa e que tiveram relações sexuais na casa de banho dessa suíte.
A reportagem do reputado Der Sipegel diz-nos ainda que CR7 pagou cerca de € 300.000,00 a esta americana para que esta não seguisse em frente com a intenção de o denunciar, judicial e publicamente, por ter tido uma relação anal com ela contra a sua vontade.
Não faço qualquer tipo de juízos de valor sem conhecer os factos e as investigações, nem sou magistrado pelo que deixo à justiça o seu papel de investigar e julgar, se aí se chegar, este caso, tal como todos estes casos.
Claro que gostava que se provasse que não é verdade e que Cristiano é inocente. Não porque é português. Não porque é o actual melhor futebolista do mundo. Mas porque sempre o tive como um exemplo do que a capacidade de trabalho, seriedade, brio e dedicação podem fazer por alguém que os decide aplicar e seria uma grande desilusão para mim (e para milhões de pessoas, sobretudo muitos miúdos que o têm como exemplo aos mais variados níveis) que, ao mesmo tempo, fosse capaz de uma coisa destas.
Mas tal como não acusaria Weinstein só porque "se está mesmo a ver que é um porco nojento", também não posso inocentar Ronaldo "só porque ela é que se meteu com ele e é um poço de outras virtudes".
É incrível como tanta gente que não tem uma única dúvida sobre a culpa dos acusados e vem para a rua empunhar cartazes de #MeToo a cada nova denúncia, passa agora para o outro extremo de ser incapaz de pôr em causa a inocência do capitão da Selecção Nacional.
O parece acontecer com uma franja de moralistas, sempre prontas a apontar o dedo a qualquer homem (no dicionário delas, sinónimo de potencial violador ou, pelo menos, chauvinista), pior ainda se for heterossexual e branco. Muitas delas fazem parte da plataforma (como agora está na moda) Capazes, criada por Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues.
Devo declarar que não tenho nada contra estas duas profissionais da televisão portuguesa, aliás nem especialmente a favor, pois não as conheço e a ideia que tenho delas é de duas boas profissionais dessa área.
No entanto, quem é moralista, ou gosta de acusar, tem de ter muito cuidado com a sua conduta e neste caso em particular, se todas as senhoras da mencionada plataforma nunca tiveram qualquer pejo em estar do lado das supostas vítimas, mesmo sem esperarem por conclusões da justiça, há agora um cuidado diferente porque ser acusado quem é.
Num texto desse site, com o título Controlemos a Nossa Sede de Sangue, lança-se a dúvida sobre como pode ser violador «um ídolo nacional e um dos melhores jogadores do mundo» e sugere-se que Kathrin Mayorga é «uma vil chantagista que seduziu Cristiano na discoteca onde se conheceram, já com um plano traçado para mais tarde poder extorquir-lhe dinheiro».
Será um acaso que, se visitarmos o Instagram da fundadora, Rita Ferro Rodrigues, encontramos dezenas de publicações onde se assume fã de Cristiano Ronaldo, sendo ainda amiga próxima do jogador, como podemos ver num post onde ambos aparecem juntos numa fotografia no aniversário do futebolista.
Não que eu ache isso estranho. Deve ser muito interessante ser amiga do melhor futebolista da actualidade e eu ia certamente gostar de ir ao aniversário dele, que deve ser um festão! Além disso, reconheço-lhe as inúmeras qualidades que referi anteriormente. Eu também defenderia um grande amigo meu se estivesse convicto da sua inocência. Mas provavelmente iria parecer hipócrita se tivesse antes acusado com leveza outros pelos mesmos crimes.
O Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, no dia 5 de Outubro, que evoca a data de implantação do regime a que preside e num evento das Forças Armadas portuguesas, de que é Comandante Supremo, decidiu comentar o caso e sublinhar o «papel desportivo e também nacional que alguém (...) teve na vida do nosso país»... Eu tenho grande admiração por Marcelo e contra os mais irónicos e sarcásticos comentadores e amigo, acho que ele está a fazer um excelente papel na Presidência, mas a inclinação para a a popularidade não pode ser confundida com populismo e além do local e ocasião me parecerem já desapropriados, talvez tivesse sido mais avisado evitar mesmo quaisquer considerações sobre o tema. Mas porque é que o PR, em pleno 5 de Outubro se lembra de comentar a eventualidade de um jogador de futebol ter violado uma mulher em Las Vegas!?!?
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